- Missão de monitoria dirigida por Sua Excelência Salim Valá. Ministro da Planificação e Desenvolvimento, identificou progressos na retoma das actividades económicas e sociais, mas também desafios que exigem maior articulação entre reconstrução pós-cheias, infra-estruturas resilientes, agricultura, agro-industrialização, financiamento e ordenamento territorial.
A Província de Gaza dispõe de condições para transformar o processo de recuperação dos danos causados pelas cheias de Janeiro de 2026 numa agenda mais ampla de resiliência climática, revitalização da produção e desenvolvimento territorial.
Esta foi uma das principais constatações da missão de monitoria realizada, de 17 a 19 de Agosto de 2026, pelo Ministério da Planificação e Desenvolvimento (MPD), sob direcção do Ministro Salim Valá, com o objectivo de avaliar a execução do Plano Económico e Social e Orçamento do Estado, as intervenções de reconstrução pós-cheias e o desempenho dos instrumentos de desenvolvimento económico local.
A missão abrangeu os distritos de Bilene, Limpopo, Chókwè, Guijá, Chongoene e Xai-Xai, tendo incluído visitas a infra-estruturas públicas, sistemas de irrigação, campos agrícolas, associações de produtores, unidades empresariais e projectos estruturantes propostos para dinamizar a economia provincial.
O balanço indica uma retoma gradual das actividades produtivas. Empresas, associações e pequenos produtores regressaram aos campos e estão a recuperar parte da capacidade perdida. Persistem, contudo, constrangimentos relacionados com estradas, pontes, diques, canais de irrigação, sistemas de drenagem, acesso ao financiamento, equipamentos e mercados.
“Dizer que as infra-estruturas destruídas não estão a afectar a economia não seria realístico”, afirmou Salim Valá, observando que os danos obrigam à utilização de trajectos mais longos, dificultam a circulação de pessoas e mercadorias, limitam a comercialização e aumentam os custos dos produtos.

Reconstrução Deve Proteger Pessoas, Produção e Investimentos
Gaza concentra cerca de 45% das necessidades financeiras identificadas no Plano Global de Recuperação e Reconstrução Resiliente Pós-Cheias, avaliado em aproximadamente 1,6 mil milhões de dólares, sem incluir investimentos estruturantes de maior dimensão, como a projectada Barragem de Mapai.
Esta concentração decorre da intensidade dos danos e da exposição da província ao sistema hidrográfico do Limpopo. Reflecte, igualmente, a importância económica de Gaza, que reúne extensas áreas de produção agrícola irrigada, corredores rodoviários, centros urbanos, unidades empresariais e infra-estruturas de abastecimento.
A missão orientou para que a reconstrução não se limite à reposição das infra-estruturas destruídas, devendo incorporar padrões capazes de aumentar a resistência a futuros eventos climáticos.
Para Salim Valá, reconstruir com resiliência significa proteger vidas, preservar investimentos públicos e privados, reduzir interrupções da actividade económica e evitar sucessivos ciclos de destruição e reposição.
A experiência da estrada entre Chicumbane e Xai-Xai, que demonstrou maior capacidade de resistência após uma intervenção baseada em soluções mais resilientes, foi apontada como uma referência a considerar nos próximos investimentos.
Na estrada N221, onde a interrupção da ligação entre Guijá e Chibuto condiciona a circulação, foram apresentadas propostas para a construção de uma ponte elevada e para a recuperação dos troços danificados.

Regadios São Activos Estratégicos da Economia Provincial
Os regadios de Chókwè e do Baixo Limpopo constituem activos fundamentais para a segurança alimentar, a geração de rendimentos, a criação de emprego e o abastecimento da agro-indústria.
O perímetro irrigado de Chókwè possui capacidade para prestar serviços de rega a mais de 33 mil hectares. Entretanto, os danos provocados pelas cheias nos canais, diques, tomadas de água e outras componentes hidráulicas reduziram a sua funcionalidade e limitaram o aproveitamento das áreas produtivas.
Um dos pontos críticos é o rombo de Chiguidela, que afecta o fornecimento de água a uma área de aproximadamente 2.600 hectares, explorada por cerca de 1.300 agricultores. O troço danificado desempenha simultaneamente as funções de canal de rega e dique de defesa.
A missão recomendou uma intervenção de emergência para restabelecer o fluxo de água e permitir a retoma da produção, acompanhada por uma solução definitiva de reabilitação do canal, do dique e da estrada.
O MPD considera que a manutenção regular dos sistemas de irrigação deve ser assumida como parte integrante da gestão do investimento público. A limpeza dos canais, a remoção da vegetação, a conservação das valas de drenagem e a reparação atempada de pequenas avarias são essenciais para evitar danos de maior dimensão.

Agricultura Deve Ser Cientificamente Ancorada
Durante os encontros com produtores, empresas e instituições, Salim Valá defendeu uma agricultura “cientificamente ancorada”, apoiada em investigação, sementes melhoradas, irrigação, mecanização, fertilizantes, fitofármacos, assistência técnica e informação de mercados.
Moçambique possui cerca de 5,2 milhões de produtores, maioritariamente pequenos agricultores que exploram pouco mais de um hectare. A transformação do sector exige, por isso, o aumento da produtividade desta base produtiva e a sua integração em cadeias de valor organizadas.
Uma das experiências observadas foi a produção experimental de sementes de trigo desenvolvida pela Wanbao, em articulação com instituições de investigação agrária. Os resultados preliminares apontam para indicadores de qualidade próximos de 99% e um potencial de produtividade de até sete toneladas por hectare.
A iniciativa poderá contribuir para a produção nacional de trigo, a redução gradual das importações e a criação de uma cadeia que integre sementes, cultivo, mecanização, armazenamento, moagem, panificação, logística e comercialização.
A produção de arroz mantém igualmente importância estratégica, atendendo à experiência existente nos regadios, à procura do mercado nacional e à presença de capacidade local de processamento.

Pequenos Produtores Precisam de Financiamento e Mercados
As visitas às associações e aos campos agrícolas mostraram que os produtores possuem experiência e capacidade de produção, mas continuam limitados pelo acesso ao financiamento, sistemas de irrigação, mecanização, fertilizantes, armazenamento e mercados.
Na Associação Guinguiricane, que dispõe de 64 hectares e é maioritariamente constituída por mulheres, as cheias destruíram parte dos equipamentos de irrigação, estufas, painéis solares e outros activos que apoiavam a produção.
Em Guijá, os produtores de sementes de feijão e milho demonstraram capacidade para produzir acima dos volumes absorvidos pelos programas existentes. A falta de mercados suficientes, porém, provocou a queda dos preços e aumentou o risco de perdas.
A missão defendeu maior organização dos produtores em cooperativas, disponibilização regular de informação sobre preços, estabelecimento de contratos de compra e desenvolvimento de mecanismos de armazenamento e processamento.
O acesso ao financiamento foi identificado como uma restrição transversal. Depois de uma calamidade, produtores e empresas enfrentam a redução das receitas, danos nos activos utilizados como garantia e uma percepção mais elevada de risco por parte das instituições financeiras.
A resposta deverá combinar linhas de recuperação, garantias, seguros agrícolas, financiamento associado a contratos de compra e instrumentos como o Fundo de Desenvolvimento Económico Local, articulados com assistência técnica, acesso aos mercados e acompanhamento dos beneficiários.
Agro-Indústria Pode Ampliar o Valor da Produção
A missão considerou que Gaza poderá ocupar uma posição mais relevante na economia nacional se conseguir ligar a agricultura à transformação industrial, à logística e aos mercados.
A Papa Pesca, empresa de capitais moçambicanos que investiu cerca de 320 milhões de meticais desde 2016, foi apresentada como exemplo de integração entre aquacultura, avicultura, inovação, formação e incubação de jovens.
A empresa possui 151 tanques de aquacultura, 52 tanques de reprodução de tilápia e capacidade para incubar aproximadamente três milhões de alevinos por ano. Na componente avícola, dispõe de quatro aviários com capacidade anual para cerca de 520 mil aves.
A produção de proteína através da mosca-soldado-negra constitui uma iniciativa de economia circular destinada a reduzir o custo das rações, aproveitar resíduos orgânicos e diminuir a dependência de insumos importados. A empresa pretende elevar esta produção das actuais 50 para cerca de 500 toneladas por ano.
A unidade possui igualmente um centro de formação prática em aquacultura, que já capacitou 96 jovens. A incubadora forma cerca de 12 jovens por ciclo, com perspectivas de ampliar o programa para 70 beneficiários, através de parcerias com iniciativas públicas.
Parque Industrial do Limpopo Poderá Estruturar Nova Dinâmica Económica
O futuro Parque Industrial do Limpopo figura entre os projectos com potencial para acelerar a agro-industrialização e reorganizar territorialmente a actividade económica de Gaza.
O espaço proposto, localizado no Posto Administrativo de Chissano, compreende aproximadamente 380 hectares, com possibilidade de expansão. Situa-se numa zona alta e menos exposta às cheias, possui acesso rodoviário e encontra-se próximo de uma linha de energia eléctrica de média tensão.
O parque poderá acolher actividades de agro-processamento, armazenamento, logística e distribuição, permitindo que as empresas partilhem infra-estruturas e serviços.
Salim Valá recomendou a elaboração de estudos técnicos e económicos que permitam identificar as indústrias mais viáveis, tendo como referência as matérias-primas efectivamente produzidas na província.
O propósito é assegurar que o parque estabeleça uma ligação orgânica com as cadeias de arroz, hortícolas, carnes, aves, pescado, rações, sementes e outros produtos com potencial produtivo e procura no mercado.
Entreposto de Bilene Poderá Aproximar Produtores dos Mercados
O entreposto comercial proposto para Muchabje, no Distrito de Bilene, poderá desempenhar uma função importante na organização da comercialização agrícola.
Orçado em aproximadamente 110 milhões de meticais, o projecto deverá ocupar cerca de três hectares junto à Estrada Nacional Número Um.
A localização da infra-estrutura permitirá concentrar a produção proveniente de Chókwè, Guijá, Chibuto, Limpopo, Chongoene e Massingir, facilitando o acesso aos mercados de Gaza e Maputo.
Para produzir os resultados esperados, o entreposto deverá incorporar armazenamento, conservação, classificação, embalagem, informação sobre preços, logística e mecanismos transparentes de negociação.
A concentração da oferta poderá aumentar o poder negocial dos pequenos produtores, reduzir perdas pós-colheita, melhorar a regularidade do abastecimento e criar oportunidades para mulheres, comerciantes, transportadores e outros prestadores de serviços.
Investimento Público Deve Privilegiar a Conclusão de Obras
A missão visitou as futuras instalações do Governo do Distrito do Limpopo, cuja construção teve início em 2018 e se encontra paralisada desde 2019, com uma execução física estimada em 23%.
A não conclusão da obra mantém os serviços distritais dispersos, aumenta os custos de funcionamento, dificulta a coordenação institucional e obriga os cidadãos a percorrer distâncias maiores para aceder aos serviços públicos.
O Ministro recomendou maior rigor na programação orçamental e a priorização da conclusão e apetrechamento das infra-estruturas existentes, antes da abertura de novos projectos sem cobertura financeira assegurada.
Esta orientação visa reduzir a imobilização de recursos públicos, evitar a degradação de obras inacabadas e aumentar a eficiência e o impacto do investimento do Estado.

Saúde e Capital Humano Integram a Agenda de Desenvolvimento
No Hospital Rural de Chókwè, a missão acompanhou uma intervenção promovida por empresas moçambicanas ligadas à família Chongo, em coordenação com a direcção da unidade sanitária e o comité comunitário de co-gestão.
Os trabalhos abrangem a cobertura, vedação, saneamento, sistema hidráulico, electrificação, pavimentação, estacionamento e requalificação dos espaços exteriores. A intervenção emprega 108 trabalhadores, dos quais 18 mulheres, e deverá estar concluída até Dezembro.
“Um povo que não é saudável é um povo que não é produtivo”, afirmou Salim Valá, sublinhando a relação directa entre saúde, produtividade, rendimento das famílias, redução das desigualdades e desenvolvimento económico.
A experiência demonstra igualmente o potencial das parcerias entre o Estado, as empresas e as comunidades na recuperação e melhoria das infra-estruturas sociais.

Transformação de Gaza Exige Acção Coordenada
O MPD considera que a transformação produtiva de Gaza exige uma abordagem integrada, ligando reconstrução, adaptação climática, ordenamento territorial, agricultura, agro-processamento, financiamento, infra-estruturas e comercialização.
Salim Valá defendeu a mobilização de aproximadamente 500 milhões de dólares por ano, durante quatro anos, para acelerar a transformação da agricultura nacional, combinando recursos internos e financiamento mobilizado junto dos parceiros de desenvolvimento.
Os investimentos deverão privilegiar o aumento da produtividade dos pequenos produtores e o desenvolvimento de cadeias de valor com maior capacidade para substituir importações, gerar emprego, criar rendimentos e abastecer a indústria nacional.
Neste quadro, os regadios de Chókwè e do Baixo Limpopo, o Parque Industrial do Limpopo, o entreposto de Bilene, as unidades de agro-processamento, a investigação agrária e os mecanismos de financiamento local deverão ser tratados como componentes de um mesmo sistema produtivo.
A missão concluiu que reconstrução, resiliência climática e desenvolvimento económico não podem ser conduzidos como agendas separadas. Em Gaza, onde água, agricultura, infra-estruturas, cidades e empresas estão profundamente interligadas, a resiliência constitui uma condição essencial para produzir, investir e assegurar um desenvolvimento territorial mais equilibrado.